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Paraíso armadilhado
O Laos é o país mais bombardeado do mundo, per capita. O militar norte-americano Darius está aqui em missão, mais de quarenta anos depois da guerra do Vietname. Este peso da História convive com a beleza e a simplicidade desta terra e das suas gentes, nas margens do rio Mekong
Parece mentira. O Laos (é estranho tratá-lo sem o artigo, com ele sentimo-lo como é, próximo) é o país mais bombardeado do mundo. A Guerra do Vietname ficou cravada na terra. Até hoje. Parece mentira, porque quem olha para a natureza quase intocável, para o país rural, não imagina o que está debaixo dos mantos verdes.

O livro "Tragedy in Paradise" - de um médico norte-americano que viveu e trabalhou no país, entre 1964 e 1973, parte dos 20 anos de conflito -, já estava na mala quando Darius chegou para almoçar no mesmo restaurante indiano (a Índia chama por nós com frequência neste périplo asiático) em Pakse, no sul.

O militar de 37 anos tem companhia, outro militar chinês, mas a conversa passa a ser a quatro. Estão numa missão de dois meses, com detetores de bombas e minas atrás. Que as há, ainda as há, mais de quarenta anos depois. Vão pelas tribos, selva do Laos adentro. O objetivo último é tentar recuperar corpos de norte-americanos que morreram na guerra.

Têm sido bem recebidos pela população, garante o pai de três filhos que anda a palmilhar um terreno armadilhado, uma realidade que espera que eles nunca tenham de conhecer.

Já conseguiram recuperar dois corpos, de militares que morreram num acidente de avião, naquela altura. No total, foram 58.220 oficiais que perderam a vida, num conflito que vitimou milhões de civis no Vietname, no Laos e no Camboja.

Em plena hora de almoço, a História pesa no estômago. O Mundial na Rússia e o primeiro jogo da Selecção Nacional ajudam a aliviar esse peso. A primeira referência de Portugal quem vem à cabeça do militar norte-americano é, claro, a Base das Lajes, na ilha Terceira. Custou-lhe recordar o nome, mas uma certeza tem: quer lá ir.

O Laos faz, de resto, lembrar os Açores, pelas montanhas e cascatas, pelas vacas pacatas com espaço de sobra. O país tem mais do dobro da dimensão de Portugal e apenas 7 milhões de habitantes. Parece mentira que se escondam nas suas terras das piores invenções do homem, que ainda matam e amputam aqueles que aqui vivem. Gente simples, que vive da agricultura e do turismo.
Rio Mekong abaixo desde a fronteira com a Tailândia em Huay Xai, e até à pequena Pak Beng, a porta de entrada no país é num barco de madeira que navega lento. Há tempo para apreciar a vida nas margens, as crianças a brincar, os búfalos a tomar banho, os pescadores a tentar a sorte. O rio é de um castanho cor de lama, mais ainda nesta época das chuvas. O único Apocalypse Now aparente é mesmo quando o céu parece desabar, mas em dez minutos se recompõe. A História, porém, deixa marcas que desaguam aqui, neste rio interminável de 4350 quilómetros, que atravessa seis países: China, Myanmar, Tailândia, Laos, Camboja e Vietname.

Nas margens, vive-se de e para o dia-a-dia. A lama até aos joelhos durante a forte chuvada não é pretexto para gazeta. É domingo, mas há trabalho a fazer e barco para apanhar. Alguns miúdos ficam, encharcados, a ver outros partir com a família e mais sacos atrás de sacos.

A encantadora Luang Prabang

A chegada a Luang Prabang é uma - tão boa - mistura de rural e citadino. Cidade charmosa, encantadora, para viver. As casas com telhados em triângulo e adornos à francesa espelham bem a influência do tempo do colonialismo, muito evidente também nas placas, pelas ruas e nos edifícios, traduzidas para francês. Todos os serviços públicos ficam em palacetes.

Em quase todas as lojas e cafés do país, erguem-se duas bandeiras: uma azul e vermelha com a bola branca ao centro, do Laos; outra vermelha com a foice amarela. Um comunismo que muitos classificam de capitalista, com grandes marcas e abertura ao que vem e a quem vem de fora.

Luang Prabang, em particular, faz isso muito bem, preservando a sua identidade. Podia ser de conto de fadas esta terra, numa harmonia que se sente de perto e se contempla lá de cima, do monte Phou Si. As dezenas de escadas valem a pena, pela paisagem bucólica e pelos buddhas e muros cauda-de-dragão.
É fácil apaixonarmo-nos. A única livraria da cidade, que é também café e cinema, existe porque uma canadiana veio em viagem e ficou. Rendidas, ela e a mãe, que veio atrás, e que tinha um bisavô "da Silva", português. Sempre as coincidências e as referências aos nossos por quem e onde menos esperávamos. Encontrar livrarias pelo país é um desafio. Não há hábitos de leitura, muitas crianças não vão à escola.

Mais a sul, nas 4.000 ilhas - chamariz turístico - do rio Mekong, Don Dhet e Don Khone são uma paz na época baixa. Poucos turistas, muitos mais restaurantes do que clientes. Pouco que fazer em termos de negócio, dormita-se aqui, joga-se cartas ali ou às damas com caricas acolá.

O tempo vai lento, a chuva vai surpreendendo as caminhadas por entre os campos de arroz e os caminhos de terra batida. Os miúdos brincam na mesma, fazem a festa com covetes a substituírem a bola na água, ou a imitarem uma prancha. Brincam sempre na rua, desbravam os poucos quilómetros destas ilhotas de bicicleta. Muitos, tão novinhos e tão novinhas, também ao volante de motas.

Nós a pé, quilómetros devagar, observando. Até esticar o corpo na primeira rede de bambu que encontrámos, a ouvir as cascatas Somphamit, ou a contemplá-las de frente. Este rio Mekong abarca do melhor. E do pior: lixo e plásticos.

Para além das cascatas, há uma praia pequena, com areia escura e de pontos brilhantes, saídos das pedras de xisto à volta. Uma árvore está caída nas escadas de acesso, as espreguiçadeiras de madeira tombadas. Low season também paga bilhete, mas não há grande zelo.

Neste caso, nem precisa. É tudo bonito na mesma. A natureza em estado bruto ou como se quis modificar por si. E as pessoas nas suas vidas simples. As crianças, magras, felizes com pouco. A menina que esticou bem a sua t-shirt do Super-Homem para a fotografia é reveladora de como estes super miúdos dão lições de vida a cada sorriso, choque de mãos, acenos ou "hello" que dizem. Respondemos-lhes na língua deles. Sabaidee. Gostam que falemos a mesma língua e cumprimentam outra vez.
Parece mentira que este país já sofreu tanto e que uma bomba pode explodir a qualquer momento. Vamos ter saudades. (Menos dos transportes, desorganizados, que testaram a nossa paciência, mas é respirar fundo, ficar com o que importa e seguir caminho).

Por onde andamos