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O miúdo dos olhos grandes
Uma atribulada viagem de comboio até Agra que ele, sem saber, tornou mais fácil de suportar. Uma viagem em dia normal de trabalho e aulas. Bobby à chegada e mais do que o Taj Mahal
Os olhos grandes, como a curiosidade. Veio com a mãe no comboio de Delhi para Agra. Tem uns nove ou dez anos, camisa branca e azul com bolas vermelhas e folhas lá dentro. Leves como ele, magrito, magrito. Ela de sari rosa forte, pano a envolver o corpo como um vestido, cabelo apanhado, brincos e meia dúzia pulseiras brilhantes e coloridas, a pinta vermelha no centro da testa, mais a tinta vermelha a contornar os pés, dois anéis em cada um. Sorriso doce e envergonhado, cansada de ir no sleeper de baixo sentada (há três bancos sobrepostos para as pessoas dormirem nesta viagem de cinco horas). Sentada com o filho, com a tralha a ocupar parte do encosto de dormir.

Os assentos e o ar são pegajosos. A carruagem tem janelas com grades, de fora não há como não reparar nas carinhas das crianças e das pessoas tipo sardinha em lata nas carruagens de classe inferior. Mas estamos dentro, noutra carruagem. A brisa entra e traz a chuva. Transporta de quando em quando o cheiro do lixo lá de fora, paisagem por estas bandas.

Depois de lá se conseguirem aninhar a dormitar, o miúdo empolga-se ao ver encher as almofadas de ar. Belisca a mãe, esquecem as incomodidades. Riem e murmuram sobre as manias dos ocidentais que os cativam. Dentes brancos, sorriso envergonhado e inocente o deste garoto.

Portugal? Don't know

No beliche de cima, por assim dizer, o estudante de agricultura. Vai para as aulas, um dia dia normal e lento. Trouxe uma manta e dormiu. Despertou faltavam ainda duas horas para chegar. Ensinou-nos que o sleeper de cima se transforma em encosto de cadeira. E aí, sentou-se ao nosso lado. Não sabe onde é Portugal. E Cristiano Ronaldo? "Oh, Yes".

A conversa fica por ali, ele de phones nos ouvidos a desfrutar da internet no comboio, que só existe para quem tem telemóvel indiano. Parco em palavras, mas prestável nos esclarecimentos. Embalados pelo comboio andam pelos corredores os vendedores de comida e bebida e passa um que entrega ao rapaz dos olhos curiosos cor de azeitona um líquido num copinho de barro bem usado. "Tea", explica o estudante de agricultura. É indiano, mas ainda consegue surpreender-se e encantar-se com o que por ali se vende. Numa das últimas paragens, entra uma mulher com o Taj Mahal dentro de bolas prateadas, verdes e roxas com confetis lá dentro. Como aquelas bolas de natal que fazem cair neve ao abanar. É nesse momento que o calor vira frio e este objeto transporta-nos para a infância e para casa.

Fralda ao relento

Os estímulos são, porém, muitos. Facilmente regressamos ao pouca-terra pouca-terra. A família do lado, mulher e marido com um bebé ainda sem um ano. Em cinco horas, ele dorme, acorda, brinca com os pais, faz chichi. Não há fraldas. As casas de banho tresandam. Troca-se o calção por outro e o sujo põe-se a secar, à janela.

Há quem traga farnel, há maridos que vão comprar comida a um dos vendedores ambulantes. Mergulha-se o pão tandoori e os dedos no molho. Come-se tudo com a mão.

O Pedro cede o lugar dele à mãe, cansada dos ombros. Namasté. Nem se ouve a voz do miúdo dos olhos à Jamal, de Slumdog Millionaire, de tão sossegado e obediente que é. Às tantas encosta-se mais para o lado, abre a janela, tralha para o outro lado. À janela, os olhos dele procuram o mundo. E isso quase nos faz esquecer como apanhar aquele comboio, o primeiro na Índia, foi tão atribulado.
A descarrilar...

Bilhete comprado pela net com tempo, dinheiro saído da conta. 06:30 na estação, meia hora antes como aconselhado. Tudo certo. A coincidência de nos sentarmos em frente ao revisor. Demora os olhos pela imensa listagem tipo fax. Tudo errado. "Ticket not valid. Out".

Faltam cinco minutos para arrancar e a desorientação faz a estação andar à roda, as pessoas como num filme em fast-foward. A um minuto da hora da partida, há discernimento para constatar que o bilhete é para outro tipo de carruagem. Arriscamos? Saltamos já em andamento.

O mesmo revisor aparece dois minutos depois, já depois de o passageiro da frente ter dito que sim, que estava tudo bem. A reserva foi cancelada no procedimento tecnológico. Resta pagar para seguir viagem, na hora, em dinheiro, e mais do dobro com a multa.

Bobby e a vista para o Taj Mahal num dia normal

36º, Agra e Bobby o seu tuk-tuk. Pergunta de onde somos e logo mostra o velho caderno com dedicatórias ao guia de 2011 em diante. De "portuguese people" também. Simpático, deixa-nos num bom restaurante com terraço e um macaco a saltitar de galho em galho. Delicioso mix vegetable, dose bem servida, partilhada pelos dois, com tandoori a acompanhar.

Já no airoso terraço do hotel Sai Palace com vista para o Taj Mahal, há outra vista, para os terraços vizinhos onde se joga cartas e se passa o tempo. Os macacos abrigam-se à sombra e apreciam durante largos minutos as suas ruas, mais calmas do que Delhi, é certo. Buzinas, sempre, claro!

Depois de Agra e do majestoso ícone da cidade, da calmaria dos seus jardins envolventes e dos macacos donos-disto-tudo, nova viagem de comboio. Maior prudência à segunda. Bilhetes comprados na estação de Agra Fort para uma viagem de 12 horas durante a noite até Varanasi, num sleeper com ar condicionado, mais limpo, confortável. Depois de tudo, parece perfeito.
Deixamos para trás um caminho a pé, não digno de postal turístico. Ali mesmo do outro lado do enorme Agra Fort e da sua envolvência verde, ali mesmo do outro lado da estrada, há barracas em fila indiana e lixeira amontoada de três metros, pelo meio, onde os pobres cães farejam restos.

Por onde andamos