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Mundo casa, mundo escola
A família com quem nos cruzámos no voluntariado, em Myanmar, e que está a viajar há um ano. Amy e Bill, os pais, e os gémeos Ronaldo e Zidane, são uma verdadeira inspiração
Ronaldo quer ser piloto de aviões e Zidane actor. São gémeos, têm dez anos e os nomes futebolísticos (a homenagem é ao brasileiro, não ao português) são por influência do pai. Bill gosta tanto de futebol que tem uma tatuagem do Barcelona na perna. Os miúdos vestem os equipamentos, mas não ligam tanto assim à bola. A mãe, Amy, é uma adepta da vida apreciada. Já vamos explicar melhor. Estes pais despediram-se dos trabalhos - ela num banco, ele da área da construção civil - para dar a conhecer aos miúdos "the world school". Literalmente, o mundo como escola. Faz agora um ano. São os Polyasianztravel, neozelandeses, e têm um lema: chasing de sun, superarem-se a si mesmos e irem atrás dos seus sonhos. O ponto de partida? A vida real.

É uma benção para quem anda a viajar cruzar-se com esta família inspiradora. No Thabarwa Meditation Centre, um centro de meditação que acolhe mais de 2.000 pessoas doentes e sem recursos, para que terminem a vida em menor sofrimento, em Myanmar, esta equipa de quatro fez a diferença para a comunidade e entre os voluntários.

Os pequenos foram os reis da atividade Make Them Move. Interagiram com os pacientes, arrancaram-lhes sorrisos gigantes e palmas sentidas. Puseram os velhotes a mexerem-se com uma candura e uma entrega fora do comum.

Na primeira noite, Amy não dormiu. "Mas para onde é que eu trouxe os meus filhos? Será que fiz a escolha certa?". Confessou-nos os seus receios, que lhe preocupavam a falta de condições e o contacto com gente muito doente. No dia seguinte, os filhos fizeram-na perceber que estava tudo bem. "Aprendo muito mais com eles do que eles comigo. Adaptaram-se logo muito bem e envolveram-se nas atividades".

Uma semana de estadia, com os voluntários a regalarem-se com os jantares preparados por esta mãe, os miúdos a encantarem toda a gente, o pai super mobilizador, sempre a incentivar a equipa de cerca de 30 voluntários.

"As crianças já não sabem apreciar a vida"
O futebol tem o poder de unir as pessoas. Três rapazes com camisolas de clubes (um deles diferente) a pintar um caderno juntos dá uma boa imagem de fair-play. Mas aqui é para além das quatro linhas: os dois de azul são os gémeos, o outro é Higuaín, que tem uma deficiência mental. Simplesmente três miúdos a brincar. Sem discriminações.

Os gémeos sabem olhar para o outro, estar com o outro, não passam a vida grudados nos telemóveis. "Vivemos numa sociedade do eu quero, eu quero, eu quero e as crianças não apreciam a vida. Vemos nisto um problema de futuro, e por isso é que quisemos fazer esta viagem com os miúdos. Mostrar-lhes o mundo, a vida real e valorizar sempre as coisas boas, mesmo quando há situações mais adversas". A meditação também é uma boa ferramenta para isto, garante ainda a mãe. Ao acordar, os miúdos meditam para se prepararem para o dia que aí vem, para acreditarem neles próprios e agradecer o que têm.

Um modo de vida que não tem nada a ver com religião. Apenas e só agradecem o que têm na vida, a comida, a família, o que de bom lhes acontece e as ilações que tiram das mais variadas experiências.

Viajar com filhos pequenos? Yes and yes

Já passaram por Tuvalu, na Polinésia, de onde é o pai, pelo Laos, terra da mãe. Zidane e Ronaldo pegaram em tartarugas grandes, em cobras, andaram com os pais numa bicicleta-taxi com um atrelado só para duas pessoas, viveram em comunidades pequenas muito diferentes do dia-a-dia que deixaram para trás, deram de si a com quem se cruzaram. Sempre vestidos de igual, é de igual para igual que lidam com os outros. Sem diferenças.

Esta família está ainda a mostrar como não é drama nenhum viajar com os filhos, incluindo fazer voluntariado. "Esquecer o dinheiro" e educar na e para a vida real.

Uma verdadeira filosofia de vida que já ganhou corpo no projeto Chasing the Sun, com a partilha de vídeos, fotografias e textos no Facebook e no Instagram (os rapazes também têm uma conta própria onde vão partilhando aventuras e conquistas). Mas não só: há um livro a caminho, precisamente com esse nome. "A mãe, às vezes, acorda às cinco da manhã para escrever porque teve uma ideia inspiradora que não quer deixar escapar", conta-nos um dos gémeos. "Chasing the Sun porque toda a gente quer ser melhor e é preciso entender que não se pode ser perfeito, mas sim melhor do que antes".

Amy que o diga. No último dia, não quis ir embora do Thabarwa sem experimentar a atividade Patient Care, para prestar os cuidados de saúde mais prementes aos pacientes. "Foi muito gratificante. Percebi que posso tratar dos meus pais se precisarem de mim quando adoecerem e aprendi a dar mais valor ao corpo, depois de ver as feridas com que as pessoas têm de viver".

Os quatro trilham caminhos e superam-se. Não há planos para esta viagem terminar, só um regresso a Auckland, em novembro, para um casamento de família.

No fundo, vão até onde quiserem ir. "Vai saber muito bem quando estiver feito" é um dos versos do hino que os gémeos cantaram na despedida, com copos a fazerem de instrumentos musicais. Esta família vê, sem dúvida, o copo meio cheio na vida.



Nota: vídeo disponível no instagram

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