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Lições do desapego
A meio da viagem, algumas particularidades e ensinamentos da Ásia
A mochila às costas é mais do que um peso. São oito quilogramas da casa que deixámos de ter e espaço onde vão caber as casas que vamos tendo pelo caminho. Palavras-chave: "desapego" e "relativizar".

Viemos com três mudas de roupa, já largámos peças pelo caminho e comprámos outras (poucas). Um ou dois livros por cada país vão-se apinhando, o mesmo com os ímans de frigorífico. Recuerdos, poucos, porque ainda há tempo, mas espaço nem por isso.

Teremos sempre as valiosas memórias (nas e fora das fotografias) para nós. Postais para família e amigos (alguns não chegam à caixa de correio, mas fizeram um caminho para um qualquer lugar). O blogue e o instagram são parte da montra dos nossos dias e uma tentativa de recordação para aqueles de quem gostamos.

Vão tendo menos relógio, estes dias, mas os despertares são madrugadores na mesma. Nunca há persianas, o sol entra sem pedir licença ou então a claridade cinzenta da chuva torrencial, nunca é de prever. Às vezes, há obras ou o barulho da vida citadina, das buzinas, tudo normal. Continua a haver autocarros, comboios ou aviões para apanhar. Muitos quilómetros de estrada, humores desavindos, cansaço.

Aprender a relativizar o tempo e as distâncias é uma das primeiras lições: dez horas para fazer 300 quilómetros é perfeitamente possível. Expectável até.

Aprender a lidar com hábitos tão diferentes dos nossos, respirando fundo para aceitar ou recusar quando se pode: é prática ver deitar lixo para o chão; cuspir escarro; alguém falar contigo com a boca cheia de tabaco; não ter noção do espaço ou da vez do outro; usar plástico em tudo (até a água vem com palhinha e saco; as bolachas com embalagem de cartão, se for preciso, vêm cada uma delas lá dentro embrulhadas em plástico); é comum estarem várias pessoas a ouvir música ou vídeos histéricos do YouTube no telemóvel, sem phones, durante uma viagem de horas ou no beliche ao lado.

Aprender a tolerar as condições de higiene: nos hostels, nos restaurantes, nos autocarros e nos comboios, para além do suor tropical, os padrões são diferentes, com algumas e tão abençoadas excepções. Baixar expectativas, baixar mesmo, é o truque para tão-só agradecer uma cama minimamente limpa (o conforto é relativo) e uma casa-de-banho aceitável, ainda que partilhada, ou uma comida com bom aspecto, bem cozinhada porque as bactérias aqui atacam mesmo.

Aprender a sorrir (mesmo quando nos apetece desatar aos gritos) quando em 300 metros, uma dúzia de motoristas nos perguntam: "tuk tuk, sir?" e "where are you going?" e insistem vezes sem conta, mesmo depois de teres dito "no, thank you". Ou quando claramente nos estão a tentar enganar nos preços ou nos câmbios. E, sim, já fomos enganados. A máquina turística engana e pressiona. É importante sabermos como não cair nela.

Vivemos com, pelo menos, seis a oito horas de diferença em relação a Portugal. Não marcámos presença em aniversários, problemas de saúde, festas de sobrinhos e de amigos, almoços de domingo. Perdemos outros momentos importantes à distância por estarmos a dormir. Bendita internet que (quando não falha) nos coloca nos eixos de manhã.

Já ficámos doentes (nada de grave), já nos irritámos muito com os outros, um com o outro, connosco próprios, já ficámos sem dinheiro, ou com quase nenhum, por não haver multibanco numa paragem ou numa ilha.

Vicissitudes do "vamos indo, vamos vendo" que assumimos. Não fazer grandes planos nem pesquisar muito traz surpresas muito boas, deslumbramentos à chegada, e algumas menos boas a atrapalhar ou a dar ainda mais adrenalina aos nossos dias.

A cada desafio - e foram vários, já - que bem que sabe o brinde inaugural de cerveja no novo destino. Deste lado do mundo, elas são bem carregadas de álcool (5%, normalmente), refrescam o calor húmido abrasador.

Em datas importantes ou quando estávamos mesmo a sonhar com aquela praia ou com aquela comida, já aconteceu as voltas saírem-nos trocadas e a vontade de brindar dissipa-se. Mais um alerta para a gestão de expectativas. Porque a vida é mesmo assim, não tem de correr - e não corre mesmo, tantas vezes - como gostaríamos.

Uma coisa é certa: o mundo é incrível. É a nossa primeira vez na Ásia e é tão bom ver de perto. Não é só o que sabemos pelas notícias, e normalmente só nos chegam as trágicas. É muito mais do que isso.

As pessoas têm vidas como as nossas, de trabalho, família e amigos, mas com padrões e hábitos diferentes. Sestas tropicais praticam-se em cada esquina, em cima de um tuk-tuk, num hammock (rede), num banco, ou mesmo no chão. Joga-se às damas com caricas, futebol com bolas de verga, dão-se passes com latas. Os miúdos que vão à escola andam quase sempre de uniforme, muitas crianças não vão, ou porque trabalham ou porque não há escola. Todas brincam na rua, tudo serve para brincar, e tantas vezes à chuva, nuas, no seu pequeno mundo, pobre, felizes com tão pouco.

Há sempre música alegre nos autocarros do Nepal que trepam montanhas em estradas tortuosas e fugidias a alta velocidade e está sempre tudo bem para toda a gente, com um sorriso na cara.

Há um caos organizado à sua maneira na Índia autêntica, e mesmo no meio de tanta poluição somos surpreendidos aqui e acolá pelo cheiro da comida maravilhosa e do incenso.

Há Myanmar para além dos conflitos, com as suas terras e gentes bonitas, onde os homens vestem saia, e onde os templos como cogumelos embelezam a paisagem e as vidas de fé.

Há as pessoas gentis e a natureza quase intocável do Laos nas margens do rio Mekong.

Há a incrível arqueologia num pobre e sabotado Camboja.

Há a Tailândia para correr de mota, as praias paradisíacas e a comida que apaixona.

Há o charme da Malásia e a cosmopolita Singapura.

A gastronomia, essa, conquista-nos diariamente. Há pratos transversais a todos estes países, como os noodles e arroz fritos com vegetais. Os sumos de frutas tropicais são de beber e chorar por mais: manga, papaia, goiaba, dragon fruit, ananás, maracujá. E comê-las frescas, mãos besuntadas, paladar ao rubro?

As refeições são mesmo pontos altos, sobretudo a cada nova chegada, em que arrumamos a casa - leia-se as mochilas - no chão. Fora de horas ou não, não interessa, há sempre tempo para saborear e brindar. E aprendemos que, com pouco, pode estar tudo bem.

P.S.: Saudades, Fintas! :D

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