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Selva adentro
O caminho faz-se caminhando, até mesmo dentro - literalmente - da selva nepalesa. Os sons, a adrenalina e as primeiras frases completas em português que não saíram das nossas bocas
Fugir pode, ou não, ser a palavra de ordem. Qualquer passo interrompido pelos guias faz disparar a adrenalina. Serão eles? Bem-vindos à selva. E a pé.

Primeiro, os avisos em tom ritmado de bula farmacêutica: "Se aparecer o rinoceronte, andem aos ziguezagues, deixem uma peça de roupa pelo caminho e trepem uma árvore; se aparecer um elefante potencialmente perigoso, escapem por sítios pequenos, onde não possa apanhar-vos; com o urso por perto é fazermos muito barulho em grupo, de frente para o bicho e um dos guias dá-lhe com o pau de bambu no nariz; o tigre é para encarar nos olhos e contorná-lo sem muito alarido".

Ufa, receita dada, até parece fácil falando, mas e se eles aparecerem m-e-s-m-o? Há quatro horas para fazer o teste. Into the jungle.

Ponham-se à escuta.



Desbravar caminho, por entre os arbustos com as árvores altas, verdes e robustas a oferecerem alguma sombra, sob o calor matinal abrasador.

Os cucos fazem-se ouvir, os corvos impacientes também, as galinhas selvagens lá ao fundo, mais à frente os veados em grupo.



Alto! Pegadas de urso, ainda frescas. Andou aqui pela manhã. Andaram? Mais pegadas pelo caminho, a adrenalina a subir e o rinoceronte parece que não é nada com ele: dorme no pequeno lago, só com as orelhas em pé, alerta.
Paragens de cinco minutos de quando em vez, em território "seguro". Rolando, professor de ciências trocou o ofício para ser guia neste National Chitwan Park, o mais antigo reduto da selva nepalesa, porque ganha mais. Tem a mãe doente, mas planeia daqui a um ano tentar a sorte... em Portugal.

Não é o único. Uma boleia simpática de jeep até ao Elephant Breeding Center revelou-se a feliz coincidência de, pela primeira vez em três semanas, ouvir frases inteiras em português cozinhadas com algum sotaque nepalês. É que este guia, nem perguntámos o nome, viveu oito anos no Algarve. Gosta muito do país, das pessoas. É um cidadão do mundo, também passou pela Alemanha e voltou à terra natal, onde vive em estreito contacto com a natureza.

Os elefantes têm honras de passagem por aqui. Às 10:50 é a hora do banho e enquanto há turistas que fazem do momento paródia, há cuidadores que se demoram a escovar as orelhas de dumbo, enquanto a tromba vai espreitando pela água dando sinal de que está a saber mesmo bem.

Na paragem de autocarro - carrinha local, a bem dizer - outro guia faz-nos companhia na espera e também gaba essa qualidade de vida, tour turística pela selva de manhã, sesta depois de almoço, mais outra tour à tarde. Trabalha-se seis ou sete meses, que na época das monções mais vale é este quieto, e está bom, umas 100.000 rupias (770 €) por ano" "Vive-se bem aqui no Nepal".

O que é pena é o governo, diz-nos, sem terminar o raciocínio. O nosso transporte chegou. Já em Kathmandu viríamos a perceber que os serviços públicos, como enviar encomendas postais, são caríssimos em comparação com o nível de vida. Dinheiro que não chega aos nepaleses e deve ir para os bolsos de alguém.

Bem, e o tigre? Onde pára, afinal? Todos sabem que está lá, mas ninguém o vê. "Maybe in other life... sorry, time!". É com a boa disposição deste guia de ambições prazerosas que a viagem segue, de autocarro, montanha acima e montanha abaixo, para a capital.

Por onde andamos