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Quando o menos é tão mais
Têm pouco com que brincar. Com um pneu ou um côco podem ganhar o dia. Os miúdos da ilha de Malapascua, nas Filipinas, sabem viver. Ensinam-nos a viver
A ilha faz-se bem a pé, de tão pequena. Há uma escola primária, outra básica. Não há hospital ou centro de saúde, a mercearia também é farmácia, não há bancos, nem multibanco. Entre os cerca de 4.000 habitantes, há crianças a brincar por todo o lado. E se brincam! Em Malapascua, tudo é pouco e tudo é simples. Uma lição de saber viver.

As estradas alcatroadas são apenas duas, muito estreitas, só para motas e peões. Carros, obviamente, nem vê-los. O resto são caminhos de terra batida, em que é preciso dar a vez para o outro passar em sentido contrário. Engraçado é como o GPS reconhece a maioria desses percursos! Mesmo sem recurso às novas tecnologias, vamos sempre desembocar a alguma casa, com galo à porta, e pessoas disponíveis, de riso fácil, para dar indicações.

A madeira faz as quatro paredes, os tetos são de alumínio, lares pequenos, quintalzinho de frente, bacias de água, roupas no estendal às vezes improvisado. As casas também podem servir de mini mercearia, a jovem dona dá o troco enquanto dá de mamar à filha bebé.

Enquanto isso, os miúdos ocupam os caminhos a brincar com um pneu e um pau, para fazê-lo ganhar velocidade. O mesmo pau serve para segurar o garrafão de água vazio, dando-lhe corda para um movimento circular na brincadeira que se segue. Sem nunca perder de vista o pneu. Correm descalços, sujam as mãos e a roupa. O mundo - esta ilha - é deles.

Noutra ocasião, dois miúdos cruzam-se connosco num dos caminhos inúmeros estreitos, labirínticos. Vêm com côcos na mão para brincar e fazer de bola. Páram para apreciar qualquer coisa num ramo de árvore. Talvez um lagarto, talvez um esquilo.

Numa das ruas alcatroadas, as crianças têm disco para jogar. Não faz mal, os chinelos podem servir o mesmo propósito. Nós também tínhamos brincadeiras simples nestas idades, a jogar à macaca, ao elástico, ao estica ou ao berlinde. Há maravilhas que os países mais desenvolvidos estão a perder...

A verdade é que todos os miúdos - os nossos, também - gostam de caixas de papelão, às vezes mais do que do brinquedo em si, agarram as garrafas de água para brincar como se fosse o melhor presente do mundo. O ser humano quer coisas simples. Está é a esquecer-se disso. O consumismo desenfreado, viciante, em que vivemos é que nos faz pensar o contrário, em nome de uma falsa felicidade momentânea.

Estes miúdos de Malapascua não sabem o que são carros telecomandados, não, e no seu pequeno mundo nem precisam disso para se sentirem felizes. Também não têm baloiços, mas desatam às gargalhadas agarrados ao braço do Pedro que os embala. O menos pode ser, mesmo, mais.
Há o outro lado, duro de aceitar. Mesmo que respondam que sim, que vão à escola, muitas crianças não vão. Não sabem dizer o que estão a estudar. Andam pelas praias a vender peças de artesanato. Outras fazem-no depois das aulas, todos os dias. E todos têm o discurso bem estudado. De tão mecanizado, as perguntas sucedem-se até sem esperar uma resposta. "Olá! Qual é o teu nome? De onde és? Queres comprar?". Alguns, os mais pequenitos, nem metem conversa e vão directos ao objectivo: "Money!". Fazem-no para ver se cola, de sorriso maroto. Dão um "mais cinco" com força, querem mostrar-se fortes e durões.

As raparigas vendem coisas e fazem de babysitters, enquantos os turistas pais estão tranquilos a aproveitar uma massagem, em pleno areal, de frente para a água calma, cor de olhos azuis-esverdeados, profundos. Quando a maré baixa, os corais estão ali mesmo a uns passos, nesta ilha que é paraíso para quem gosta de fazer snorkelling e mergulhar na aventura dos tubarões.

Há prainhas pequenas, desertas, bonitos postais que, infelizmente, escondem lixo na beira-mar e na areia. Dá para imaginar como estará o fundo do oceano... Desleixe da população, ignorância... Vêem-se os próprios marinheiros a atirar detritos borda fora, como se fosse a atitude mais natural do mundo. Uma mancha carregada, na beleza (quase) paradisíaca das praias asiáticas. Malapascua mereceria, sem dúvida, outro cuidado. Por parte dos turistas também.

Vive-se do turismo, aqui, da pesca e do comércio. Vende-se o essencial, há apenas o essencial. Come-se bom peixe fresco grelhado no mercadinho local. Os restaurantes das guesthouses e dos hotéis têm pratos vegetarianos de querer repetir. As noites quentes pedem uma cerveja Red Horse gelada, 6,9 de álcool, um bom embalo para uma noite tranquila.

Não se passa nada em Malapáscua. Mas a felicidade está, mesmo, nas pequenas coisas. Por isso, passou-se tudo em Malapáscua. Vamos com o sorriso e a simplicidade destes miúdos no coração. Vamos com as lembranças dos verões passados em casa dos avós a tomar banhos de mangueira. Aqui, ainda são mais ou menos assim, para miúdos e graúdos: um balde, água do poço e siga, enquanto o galo canta.

Por onde andamos