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Quando a aventura pede prudência
A Indonésia era dos países onde tínhamos a expectativa de passar mais tempo. A viagem já estava marcada quando aconteceu o terramoto do final de julho. Fomos dias depois, na incerteza. Rapidamente o povo, a espiritualidade e a natureza nos conquistaram. Ela é que manda, houve mais sismos, dissemos adeus mais cedo do que queríamos. Esperamos voltar
Já tínhamos começado a sentir o paraíso, quando nos apercebemos que a terra tremeu. Na Indonésia, em Lombok, nós ainda na ilha de Java, na quietude de Borobudur. Não sentimos o abanão. Voltou dias depois, já estávamos em Bali. Não demos por nada. A ameaça estava e está lá, latente. Também há destruição e morte no paraíso. Mais do que a beleza das praias, este é um paraíso de espiritualidade. Encarna em sorrisos francos, das queridas pessoas daqui.

Em Bali, ficamos absorvidos pelo perfume do incenso doce que acompanha as folhas de bananeira que, todos os dias, são recheadas de flores e arroz, oferendas colocadas em cada templo, pela manhã.

Mesmo ao andar pelas ruas, pode ser difícil não pisar no ritual. Os passeios, em frente às entradas magistrais das casas-templo das gentes desta terra, estão igualmente repletos dessas ofertas para dias bons e boa sorte. Para agradecer, sempre. Não se pode pisar a gratidão.

As mulheres, de flor na cabeça, sorriem com os olhos luzidios e com os dentes brancos. São serenidade, expressão dessa espiritualidade intensa. Faz lembrar Varanasi, na Índia, mas aqui é uma espiritualidade calma na mesma proporção. Não demora até sentir que Bali é especial.

O aconchego de Borobudur

Na verdade, Borobudur foi logo um cartão de visita para guardar com carinho. As orações às quatro e meia da manhã convidam a abrir a pestana para ver o sol nascer e desfrutar do dia até ao pôr-do-sol. As vidas guiam-se pelo relógio da natureza.

Todas as pessoas se cumprimentam e nos cumprimentam. Os acenos, "hello" e sorrisos que nos oferecem são tão genuínos, entre o efusivo e o carinhoso, que confortam o coração. As portas das casas estão abertas. Os estranhos não o são aqui. Os caseiros dão tofu a provar, acabado de fazer, manualmente. Vive-se da agricultura, tudo é fresco, todos os dias.

É difícil pôr em palavras a sensação que é receber isto tudo, num trivial passeio a pé, ou ao volante de uma bicicleta. Que nos dias menos bons a memória nos valha para perceber o que realmente importa e deve ficar guardado, nesta vida.

Como a lição de que a indiferença não deve fazer parte do menu dos dias. Muitos indonésios que visitam o templo de Borobudur - que lembra o Angkor do Camboja - vêem estrangeiros pela primeira vez na vida. Querem selfies, fazem perguntas, sorriem sempre. Trocam-se dois dedos de conversa desinteressados.
Viajar com perigo à espreita

Foi enquanto nos espreguiçávamos no jardim envolvente, que um sismo de 6.9 abalou a ilha de Lombok. A intensidade foi tal que até no aeroporto de Denpasar - Bali houve estragos.

Uma semana depois de um outro terramoto. Alerta de tsunami, pouco depois retirado. Cerca de 450 pessoas perderam a vida desde o primeiro sismo. Nós longe, ao mesmo tempo tão perto. Voo já comprado para Bali. Fomos, na incerteza.

Ubud de levar para casa

Ubud rapidamente nos conquistou. Um quartinho com varanda resguardada a estrear e vista para telhados de mini templos, a começar logo pelos que ficam no átrio da guesthouse. Pequenos-almoços demorados, leituras enquanto é dia, pés em cima da mesa. Um pequeno retiro no centro de Ubud, onde o barulho das motas e do tráfego intenso retira medalhas à imperfeita perfeição.

Apesar de muito turística, apetece ficar uns dias na cidade. Perdermo-nos no labiríntico mercado, quem dera poder levar quase tudo. As peças de decoração são uma perdição. Os restaurantes servem pratos bons e bonitos, sumos naturais maravilhosos, num ambiente verde, tranquilo, com fontes de água a fazer honras de música ambiente.

As cascatas, os terraços de arroz e as águas que se acredita serem sagradas estão a poucos quilómetros. A mota é o melhor meio de transporte para chegar mais rápido, apesar do desafio do trânsito. Pelo caminho, mais lojas com peças únicas (já sabemos onde lojas de renome em Portugal vêm buscar coisas e/ou inspiração).
Praia a saber a pouco

Bali é também, claro, praia. Os surfistas deliciam-se com Balangan Beach, Dreamland Beach e Kuta, que ficam perto do aeroporto. Já não estávamos habituados a água mais fria. Banhos de sol, esplanada e cerveja parecem melhor combinação.

Amed, Nusa Penida, Lombok e Flores ficarão para outro tempo. Encurtámos a estadia num dos países por que estávamos mais curiosos. A natureza não tem hora marcada para mostrar a sua fúria, mas as réplicas que se sucederam ao longos dos dias ditaram prudência. Ansiamos por um reencontro.

P.S.: Visitámos a famosa produção do café Luwak, cujas bagas são comidas pelo animal com o mesmo nome e são recolhidas ainda com as cascas nas fezes. O bicho é utilizado para uma espécie de fermentação, uma vez que a digestão não é completa. O café é óptimo, mesmo sem açúcar, mas a produção em escala está a ameaçar a espécie. Disto, claro, fica um sabor amargo.

Por onde andamos