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Memórias que se formam e se sentem no chão
Faz hoje três anos que o Nepal foi abalado pelo pior sismo em mais de 80 anos. É o dia em que deixamos Kathmandu, cidade em que a poeira e o incenso vivem em harmonia
Sente-se no piso irregular, na cidade com obras em todas as ruas. O sismo foi há três anos, faz precisamente hoje, neste 25 de Abril. É o dia que deixamos Kathmandu, a capital do Nepal. O dia em que, em Portugal, comemoramos a conquista da Liberdade.

Em 2015, estava a trabalhar no hotel em Thamel. Pouco depois das 11 horas da manhã, Seroz viveu o abanão de 7,8 na escala de Ricther naquele que era - deveria ter sido - apenas mais um dia normal de trabalho. Foi o pior sismo em mais de 80 anos. Morreram 8.259 pessoas, mais de 19.000 ficaram feridas e milhões foram afetadas. Ainda se sente a destruição e a morte ao pisar este chão.

Seroz não perdeu a família. Ele e os seus perderam a casa de família. "Foi abaixo. Foram muitas horas de pânico. Só depois das seis da tarde consegui contactá-los". A reconstrução da casa, "pequena, dois quartos", custou 700.000 rupias, mais de 5.000 euros.

Estava na casa de banho da sua casa arrendada em Thamel, quando o abalo se deu. Mais de 30 segundos, em determinadas zonas até dois minutos, em que milhões de pessoas viram o mundo - o seu mundo - desabar.

Houve um hotel no mesmo bairro, onde a maior parte dos turistas vai parar, que o terramoto desfez em pedaços. Dezassete pessoas perderam a vida. Era o Budget Multiplex. Reergueu-se.

A vida continua, continua sempre. As pessoas continuam a sorrir os bons dias, os miúdos vão para a escola com uniformes impecavelmente engomados, nalguns casos de gravata e tudo, as bancas de artesanato multiplicam-se que nem formigas, caminha-se por entre chão de xisto e terra batida, andam homens e mulheres a tratar das canalizações, que a força de braços não tem sexo definido.

Depois da Índia, as advertências para o caos da cidade faziam antever uma nova Nova Delhi. Há muita poeira, mais ainda, mas que convive harmoniosamente com o incenso. O cheiro torna-se agradável pelas ruas, até nas mais estreitas há pauzinhos a queimar à entrada das lojas pequenas ou das casas de portas de anão. As livrarias e casas de postais e cadernos feitos à mão soam a poesia. Becos desembocam em pátios partilhados por várias famílias. Cheira a comida caseira, a entrada é um restaurante, mesas de madeira.

O trânsito, apesar da desordem, é mais respeitoso, muito menos buzinas. Já damos por nós a perder-nos pelas ruas deixando que as motas vindas do nada nos contornem. Despreocupados.
Namasté sempre, porta sim, porta não, porta sim, porta sim. Ruas de costureiros, quase todos homens; ruas com talhos; ruas de artigos para casa; tipografias paradas, com homens embrulhados nos seus pensamentos ou a ler o jornal; mulheres sentadas em banquinhos nepaleses a fazer colares ou terços. Vendem-se flautas e instrumentos musicais com a forma de elefantes. Um som breve e delicado neste labirinto pejado de bandeiras, de uma ponta à outra de cada rua. Amarelo, vermelho, verde, azul, como se fosse sempre altura de festas populares. São mantras. Templos pontiagudos a cada quarteirão, locais de oração nos passeios, nas esquinas, por todo o lado.

Deambular pelas ruas da capital, muito para além das carismáticas Durbal Square ou do Templo dos Macacos, é mergulhar no dia-a-dia das pessoas.

Não é viver a vida delas. Seremos sempre turistas, pessoas em trânsito. Mas temos tempo para observar como cozinham os rotis (pão que vai a assar ao de leve) ou os momos, ali ao lado da torre Sundahara, parcialmente destruída por um tremor de terra em 1934, novamente decapitada em 2015. Era branca, agora é branca e cor de cimento. Está como a natureza a quis deixar há três anos.

Temos ainda tempo para ver como os sapateiros arranjam os sapatos com cuidado, como as encomendas são empacotadas em tecido costurado na hora e seladas com cera vermelha, ao jeito dos velhos diplomas universitários.

Entramos numa das escolas de arte que há em Kathmandu e o professor entusiasma-se com os quatro tipos diferentes de pinturas: Mandala, Kalachakra Mandala, Buddha e o ciclo da vida, em graus de dificuldade até atingir o de master. Uma aluna pinta no chão, pernas à chinês, com pouca luz, o interior de uma circunferência em tons de azul.

Pelo caminho, em mais uma rua estreita, um grupo de mulheres vestidas de vermelho e dourado rodeiam uma noiva, vestida com as mesmas cores. Pétalas de flores, arroz e frutos vermelhos num ritual entre a cabeça e o chão. Sempre esta ligação ao chão e à terra. Ela acabou de dizer "sim". Mais uma prova de que a vida continua.

Por onde andamos