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Duas Delhi, uma que deixa marca
Os livros de recomendações aconselham conhecer a parte de elite primeiro, a velha cidade depois. Os planos, aqui, são ao contrário, incluindo pernoitar na parte da cidade onde há poucos turistas
Acordar em Paharganj. Bairro para lá da anunciada Nova Delhi, que tem na verdade Old Delhi ainda pelo meio. Acordar em Paharganj é ter passado só algumas vezes pelas brasas durante a noite, tal o calor, falta de condições e, naturalmente, as buzinas que não dormem. Som de fundo, gritam aos nossos ouvidos. São melodia natural para quem aqui vive.

Do beco do hotel para ruas estreitas de um metro, ornamentadas com lixo e odores urinários. Não há como o nariz não se habituar. Ou respirar menos. Mais lentamente.

Em 200 metros, também se encontram hotéis, o barbeiro aqui, a loja de conveniência acolá. Tudo se vende, nem tudo se compra.

Ao desembocar na rua principal do bairro, os frenéticos tuk-tuk com aquelas buzinas que ecoam nos ouvidos chamando-nos à terra. Ainda há tempo para comprar bananas, antes de passar a grande e pomposa placa de alumínio que diz New Delhi.
É só a estação de comboios. Cruzamos as 16 linhas entupidas. Famílias indianas pelo chão sem pressa, à espera do comboio que tarda, pessoas em passo apressado a carregar malas pelas mãos ou na cabeça, a delicadeza e a postura próprias do Ballet.

Não se dança, mas o tempo embala esta gente. Ainda há Old Delhi depois da estação central. E, aí, uma viagem a um caos maior do que o bairro, a um caos com a sua organização, mais uma vez nenhum acidente, tantos quase acidentes. Entre pessoas, tuk-tuk, carros, riquexós, vacas e cães... A harmonia possível em Old Delhi.

Possível e surpreendente. Avista-se a bonita Jama Masjid, local de culto, sapatos à porta e o simpático "old man", como se auto-define, a querer um contrato de guia que o levou apenas até ao restaurante mais próximo. O estômago dava horas e só clamava por isso. Karims, sugestão do "Old Man" era ali a 200 metros e vem também no menu recomendado pelos livros de referência para turistas. Este restaurante não faz distinção a idades, nem origens. Ao nosso lado janta um grupo de amigos, que não terá mais que a nossa idade e imediatamente atrás um casal de vida feita. Dois turistas juntam-se à conta.

Nos pratos não há que enganar, é jogar pelo seguro! E pão. Muito pão. O delicioso tandoori roti que ora serve de talher, ora serve de alimento. Mergulhar este pão nos deliciosos molhos de especiarias, tem sido o prato do dia. A refeição está fechada. A hora de pagar tem um percalço inesperado, por não termos um Visa local. Viagem até ao "cambio" mais proximo com gerente à cautela. Euros por rupias. Aperto de mão e o tradicional balançar de cabeça.
A azáfama em Old Delhi continua, indiferente a quem se deixa parar por um bocado. Olhos presos ao tráfego aceitam o desafio de se desviarem para as lojas. Vende-se de tudo: roupa, sapatos, bricolage, remédios, água engarrafada mais do que uma vez, comida, bules que remetem para o imaginário infantil do Aladin e outros bonitos objetos indianos.

Há beleza nas cores vermelhas, laranjas, amarelas e verdes da cidade. Há beleza nas formas irregulares e no caos quando olhamos para a lente da câmera. A realidade é, todavia, crua. Dura. Crianças que pedem nas ruas com um inglês pouco perceptível e gestos tão universais. Poucos turistas, indianos de olhos postos nos poucos que há, com solicitações de cinco em cinco segundos. "No thank you". Até que aparece o senhor que no dia anterior já tinha metido conversa. Para fazer negócio, claro está, tuk-tuk por tuta e meia. Mesmo com um "não", mão estendida, direções and "welcome to India".

Bem-vindos a Delhi, depois de Old, aquela a que se pode chamar mesmo pelo nome: Nova Delhi. Metro pouco frequentado, em comparação com a amálgama de gente de Old Delhi, ar condicionado, camisas nos homens, burqas em casa e calças de ganga entre as mulheres. A elite de Nova Delhi a caminho do trabalho ou de afazeres.

Khan Market fechado ao domingo, mas vem aí almoço digno das saídas domingueiras melancólicas dos portugueses, aqui até Pandara Market. Paga-se bem, come-se muito bem, com tempero indiano e a devida atenção aos pormenores. O trato é executivo e combina com os pratos. Escolhemos ao calhas, e acertamos em cheio. Um molho vermelho carregado com pedaços de tofu devidamente marinados, um sem número de especiarias e a habitual malagueta. Do outro lado, um guisado de legumes vários, apetitosos, picantes q.b. a mais dois cestos de tandoori. Os copos de água de cortesia vão para trás, intactos.

Barriga cheia e a melancolia do meio da tarde em ruas onde se ouvem os pássaros - sim, ouvem-se corvos e periquitos em Nova Delhi, mesmo com buzinões aqui e ali, tão menos, tão indiferentes já ao ouvido que se deixa já encantar pela tranquilidade que as aves trazem a esta cidade.

Os esquilos entretêm-se nos Lodi Gardens, jardins de namoro e de passeios em família, de críquete, badminton e frizbee. Meninas pequenas de trajes e pinturas indianas que enfiam pulseiras nos braços das turistas. O tom é de obrigação de compra, imperceptível nos dizeres, perceptível nos valores ditos em inglês. O olhar é de criança formatada, mas ainda assim meiga e inocente.

Admirar as famílias de Nova Delhi num parque espaçoso, verde, com árvores vistosas e imponentes, em tons de final de tarde, é quase estar em Lisboa na Gulbenkian. Isto também é Nova Delhi. Mas para uma ínfima parte desta gente.
A verdadeira Delhi, a velha, cansa. É difícil filtrar ou pensar sequer em habituar a cabeça, ou sossegar o coração. Três dias dão para habituar (mais ou menos) o ouvido às buzinas e aprender a não respirar fundo uma só vez.

Por onde andamos