Loading...
O chapéu e a tatuagem
Dos símbolos asiáticos desconhecidos às curiosidades mais ocidentais. Deste lado do mundo, as pessoas não perdem a capacidade de se espantar
Em bico, como os olhos, são assim os chapéus dos asiáticos. Os clássicos "non la", ou chapéus de folhas do Vietname têm primos noutros países, com materiais e adornos diferentes. Aquele que nos acompanha desde o Myanmar, viaja preso à cabeça ou à mochila, que fica a parecer um miúdo às cavalitas. O chapéu de bambu andou pela Tailândia, Laos, Camboja e agora Vietname. Em todos estes países, tem aguçado a curiosidade das pessoas. É símbolo de uma Ásia para muitos ainda desconhecida. Tal como a tatuagem do Pedro, de estilo ocidental, mas já lá vamos.

O chapéu do Myanmar recebe elogios dos homens: "Nice hat" ou, se das bocas não sai uma palavra de inglês, gestos com as mãos à volta da cabeça e um sorriso. A mensagem passa na mesma. As mulheres, para além de mostrarem que gostam, querem tocar, experimentar e, até, tirar fotografias, sozinhas ou com a estrangeira de olhos sem forma marcada.

À explicação sobre a origem do acessório, há quem rejubile e também sonhe conhecer a Birmânia. Há quem sorria, apenas, sem compreender ou fazer ideia de onde fica esse lugar.

Os "foreigners" são atracção na Ásia, sempre, pela diferença de tons de pele, de olhos e de cabelo, pela fisionomia, e quando têm algo ainda mais incomum. Com a tatuagem - uma lista negra - que o Pedro tem na perna, é ver as cabeças e os olhos em bico a acompanhar os passos dele, com ar surpreendido, curioso, por vezes intrigado.

Podemos não perceber a língua que falam, mas há gestos universais e comentários perceptíveis, a avisar os amigos para também repararem. As cabeças lá se viram outra vez todas ao mesmo tempo. As crianças, mais atrevidas, vêm tocar no desenho, na pele, sem pedir licença, para ver se é real. Às vezes, não é só ver para crer.
Os asiáticos com quem trocámos dois dedos de conversa não conhecem a Europa, vários não sabem onde fica Portugal ou a referência que têm é, apenas, Cristiano Ronaldo. Nunca saíram da Ásia, muitos nem do seu país, nem da sua cidade.

A enfermeira Khan, por exemplo, circunscreve a sua realidade apenas à desordenada e feia Sihanoukville, no Camboja. A trabalhar há quatro meses, o objectivo primordial é pagar a casa arrendada, já que vive longe da família, e, depois, juntar dinheiro para ir até Siem Reap, a 525 quilómetros. Quer ver de perto a beleza de Angkor. Trabalha 7 dias por semana, 12 horas por dia, ganha 450 dólares. Ambicionar mais do que conhecer o Camboja pode ser uma ilusão. A vontade alimenta a esperança de poder ser um pouco mais do que isso, se calhar ir até à terra de onde veio o chapéu diferente, que também a ela não foi indiferente.

Se para os europeus e norte-americanos é barato viajar pelos países asiáticos, para eles as contas são outras, mais difíceis de fazer. Pelo dinheiro e pelo tempo. A simpática An, por exemplo, trabalha num hostel e só pode tirar uma semana de férias a cada ano. "Se tirasse mais, ficava sem trabalho". Isso não lhe tira o sorriso da cara e o profissionalismo.

Para os bolsos mais recheados, "só" a Ásia já é todo um mundo para descobrir. Com praia, montanha, aventura, História, vida cultural, mercados e, claro, comida de fazer água na boca, encontram paraísos a cada esquina, em cada fronteira. Ralen que o diga. É filipina, trabalha numa empresa de telecomunicações, em Singapura, e está de férias em Nha Trang, no Vietname. Já viveu três anos em Saigon e esta cidade de praia a 430 quilómetros é um retiro de eleição. "I Love this place". Volta, volta sempre, mesmo com pouso profissional agora noutro país. A Europa será uma opção? Se a empresa abrir um escritório lá. Há alguma curiosidade, mas este lado do mundo preenche-a.

O Vietname, então, está no topo das preferências. Entre asiáticos e russos, que gostam de Nha Trang como os espanhóis e os ingleses do Algarve. Muito turismo (e investimento) chinês, também, e turismo sul-coreano. Chapéus de abas largas destacam-se nas ruelas, tal como as poses para as repetidas selfies.

Acordar em Hoi An, cidade pitoresca e charmosa, de casas coloridas, baixas, misturando influência francesa, japonesa e chinesa, pode ser tropeçar nessas selfies que começam logo às primeiras horas da manhã. Somos empurrados para elas ainda com remelas nos olhos, antes de tomar o pequeno-almoço.

Não demora muito até nos pormos no lugar dos famosos que não somos, e que querem somente passar despercebidos. Um casal de portugueses que conhecemos em Hue - autores do blogue Worldwide Journey - até na praia, dentro e fora da água, não teve descanso, com os excitados pedidos de fotografias. Curiosidade genuína, sem filtro, das gentes de cá.

A atriz e realizadora brasileira Maria Ribeiro resumiu bem este tipo de emoção no Fala com Ela, programa de Inês Meneses na Radar. "O espanto é tudo o que a gente não quer perder".

Este podcast é, quase sempre, companhia nas longas viagens de autocarro que fazemos. Desta vez, foi entre Hue e Ninh Bihn, subindo o Vietname das penínsulas e dos rios, das colinas e vales que se desdobram em campos de arroz. País que consegue, mesmo, espantar a cada quilómetro.

Por onde andamos