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A Ásia-Portuguesa
Um salto dos livros da escola para onde a História aconteceu
O passado é feito tantas vezes de ruínas, mas há heranças que perduram no tempo, seja em pedra, seja em hábitos, seja em palavras. A bandeira portuguesa está aqui, em Malaca, no navio de madeira que é um museu. Bandeira é, aliás, um dos exemplos de palavras que foram adaptadas pelo malaios, tal como sapato. Algumas placas nas ruas estão escritas em bom português. Este povo anda, desde sempre, a apontar caminhos.

Como aquela placa que nos direciona para a Porta de Santiago, mais conhecida por 'A Famosa', edificada por Afonso de Albuquerque, em 1511. Também em pleno centro da cidade, encontramos a igreja de St. Paul's, a mais antiga da Ásia, que foi construída a mando do capitão Duarte Coelho. Uma igreja em ruínas, sem teto, sem quase nada, mas que alberga História nas paredes e nas lápides que ainda resistem. A nossa rosa dos ventos vermelha, no vértice do triângulo da ruína, está intocável.

Na caravela-museu Flor de la Mar, constam reproduções das embarcações que desbravaram os mares nunca d'antes navegados até esta cidade, porto por excelência de transações comerciais no século XVI, quando os portugueses andaram à frente do mundo, atrás das especiarias.
Há os dois lados dos Descobrimentos, o do invasor e o do invadido: o heróico, de que Portugal se orgulha, fica-nos na memória das lições da escola; mas também há o lado da escravatura, que a Malásia não esquece e enfatiza, com reconstituições, no museu, dos malaios feitos presos para irem servir o rei em Portugal, e com escritos sobre os combates e a destruição consequente. No posto de Turismo local, ao entusiasmo da pergunta pela igreja portuguesa, a resposta é de desencanto, quase indiferença:"É ali, mas são só ruínas".

A verdade é que Malaca preserva a sua História em todo o lado, a céu aberto e na mais de meia dúzia de museus de que é feita. Os portugueses foram corridos pelos holandeses, que por sua vez foram depois corridos pelos ingleses. Hoje em dia, a influência britânica é notória, mas tudo começou com a Ásia-Portuguesa, como é descrito aquele tempo. Hoje em dia, à mesa, servem-se ainda portugis egg tarte, os famosos pastéis de nata. Fazem-se notar nas roulottes e nos restaurantes locais, entre as iguarias malaias, chinesas e indianas. De aspeto, os olhos compram, já de sabor...

Malaca e Kuala Lumpur, a capital da Malásia, bem como Singapura, cidade-Estado (onde os portugueses chegaram em 1514) têm as suas Chinatown e Little India, num alvoroço de comes e bebes e compras; mais a vida dos templos taoístas, budistas, hinduístas e mesquitas islamistas. Todas elas com centenas de chinelos e sapatos à porta.

Em pleno início do Ramadão, também nós despertamos nas madrugadas, com as orações bem audíveis vindas da mesquita mais próxima. Partilhamos quarto de beliches com fiéis indianos que interrompem o sono para o compromisso de devoção.
Há comunhão na diversidade de religiões. Como deve ser. As pessoas respeitam-se na diferença. Como é possível que o mundo, e aqui tão perto, ande às avessas, com massacres diários?

Malásia e Singapura são, no fundo, uma lição de harmonia. Sente-se entre as pessoas e nas ruas cheias de vida e de música. Uma lição de regras, também: os monges têm, como na Tailândia, prioridade nos assentos dos transportes, há lugares destinados apenas a mulheres e sinalética a impedir beijos, comida e bebida e, especificamente, transportar os frutos durians.

É o cheiro desses frutos que passeia pelas ruas de Kuala Lumpur, ornamentadas pelas icónicas flores de hibisco. Em Singapura, as avenidas estão repletas de arranha-céus imponentes vestidos de verde e até nos alicerces das pontes trepam heras. Malaca também tem traços de grandiosidade e, ao mesmo tempo, parece uma vila, com os tons tijolo do Oriente e as casinhas brancas de uma qualquer rua portuguesa. O rio que a atravessa e as suas pontes em lua levam-nos, por momentos, até Aveiro. Harmonia até na distância.

Por onde andamos