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O segredo de uma Thukpa
Neste tipo de viagem que auto-denominamos "à descoberta", não poderia ser de outra forma, senão com comida local: comida de rua, comida dos trabalhadores, comida de familia.
Sendo que tantas vezes a comunicação é dificil, até quando se fala a mesma a lingua, seria uma pena não aproveitar este dialeto universal do paladar.

Quando nos sentamos à mesa, há um fosso enorme na transição Índia-Nepal. Se na primeira, desde a mais pequena casa de familia até ao restaurante mais popular da cidade, há no mínimo trinta pratos de opção, a chegada ao Nepal brinda-nos com um curto leque de possibilidades.

Nas casas locais, destacam-se o dal bath, que se apresenta como o prato maior nepalês, os mo:mo, a chowmen e por fim aquele que viria a ser o nosso maior regalo : a thukpa de vegetais.

A Thukpa é um prato barato, confessionado em poucos minutos, com os legumes do dia. A nossa passagem pelo país fica marcada por duas, a primeira que nunca se esquece, em Pokhara, e uma algures em Kathmandu, cujo local não voltamos a encontrar.

Na descoberta pela casa mais tradicional, entrámos numa porta pequena onde no interior almoçam duas senhoras mais velhas num dos bancos corridos, um senhor mais velho dorme, um cão vagueia pela entrada e, por fim, à direita o proprietário: nós não o entendemos e ele não nos entende a nós. Pedimos o menu, que gera uma risada irónica por parte das senhoras, que levantam o queixo na nossa direção : "no menu". Claro que não há menu. Há uns nomes escritos na parede que, com mais ou menos dificuldade, nos obrigam a optar por dois deles. E cerveja gelada.

Sentamo-nos e poucos minutos volvidos, percebemos que o cozinheiro está na banca do mercado ao nosso lado, a escolher os vegetais, para a nossa refeição. É claro que não há menu, isto não é um restaurante onde te querem agradar, é uma cozinha familiar que confeciona os pratos mediante a disponibilidade dos ingredientes. Vinte minutos passados e já a temos à nossa frente, a primeira Thukpa. Mal se saboreia, percebe-se que tudo está certo. Esperávamos que um prato não nos satisifizesse para podermos pedir outro de seguida.
A segunda Thukpa que se torna memorável já acontece na capital, mas longe da azáfama e do caos. É um sitio recatado e pelo aspecto exterior percebemos que é ali que nos queremos sentar. A casa está vazia e não apresenta sinais de ser frequentada por estrangeiros. Continua sem haver menu e desta vez nem há nomes na parede. Também não é preciso, porque já sabemos o que queremos.

São duas Thukpas. Mal começam a ser preparadas e o lume aquece o refogado, percebemos que estávamos no sítio certo. O aroma inicial entra-nos estômago adentro e não resistimos a levantar do lugar e perguntar se podemos ficar a ver a confeção do prato. A senhora não percebe bem a razão, mas deixa-nos ficar a olhar. Vamos perguntando o que é isto e o que é aquilo, mas a comunicação é dificil. A dona da cozinha preocupa-se em limpar os utensílios e vai olhando para o marido com um ar envorganhado como que a achar que estamos a atestar a limpeza do cozinhado, mas está longe de ser isso. Pouco nos importa o aspecto das panelas, ou se os talheres vê de dentro de um balde. Estamos aqui, porque o cheiro que desfila no ar é já o inicio da nossa refeição. As entradas: pokoras, uma espécie de pataniscas de vegetais. Um aconchego inicial para o estômago.

Percebemos que o casal não era daqui, vivia a duas horas de distância e os quilómetros que fazem diariamente, são para manter o espaço alugado onde confecionam pratos para eles a para os trabalhadores ao redor. São novos, têm um filho. Aparentam ter mais anos na pele do que na vida. Ele arranha inglês, ela nem um pouco, mas uma troca de palavras bastou para que tudo ficasse claro para nós: segredo de uma Thukpa é não ser feita para clientes, é ser feita para a familia. É ser feita por homens ou mulheres, simples, donos de casa/cozinha com os ingredientes do dia, como se fosse para os filhos ou o conjuge.

Ninguém nos pergunta se está bom, mas nós fazemos questão de o realçar. O casal fica meio embaraçado, como que achar que chegamos sequer a colocar a hipótese de não estar.

Por onde andamos